domingo, 15 de setembro de 2013

Carcass e Bolt Thrower - relançamentos em vinil

A famosa gravadora inglesa de death metal/grindcore Earache dá sequência à sua maravilhosa série de relançamentos em vinil "Full Dynamic Range".
A bola da vez é o demolidor e absolutamente avant garde full lenght de estreia do Carcass, Reek of Putrefaction, originalmente lançado em 1988, e o terceiro lp do Bolt Thrower, Warmaster, de 1991. As edições são de babar. Trata-se de versões gatefolded (pra ser inteiramente honesto, não consegui sacar se a do Carcass é gatefolded; só vou descobrir quando as minhas cópias - purple e green - chegarem) com vinis em varias opções de cores, além do tradicional black wax. Confiram só a qualidade da bagaça:







Vale lembrar que outros títulos das bandas já foram disponibilizados na mesma série, como Necroticism: Descanting the Insalubrious e Heartwork, ambos do Carcass, e Realm of Chaos e The IVth Crusade, esses dois do Bolt Thrower. As versões em vinil colorido desses últimos plays já estão esgotadas no site da Earache, sendo possível comprar os lps apenas no tradicional vinil preto.

Cannibal Corpse - picture vinis relançados

A velha Metal Blade, da Califórnia, também não fica para trás. Em comemoração aos vinte e cinco anos de carreira da lenda do gore death metal americano Cannibal Corpse, o selo recentemente editou em versão picture todos os full lenghts da banda. Eles ficaram bem legais (mas senti falta de uma capa convencional de papelão por cima), saquem só dois exemplos:


Butchered at Birth - frente do picture

Butchered at Birth - verso do picture


The Wretched Spawn - frente do picture

The Wretched Spawn - verso do picture

Também é de se ter em conta o relançamento em vinil (não picture) desses mesmos discos do Cannibal Corpse realizado há pouco tempo pelo selo inglês Back on Black. Para quem não conhece, a Back on Black (como o nome já entrega) é especializada em reeditar em vinil discos antigos pertencentes a catálogos de diferentes gravadoras clássicas do universo heavy metal. Vale muito a pena dar uma conferida em seu site.

Amorphis - "Privilege of Evil", relançamento em vinil

Já a americana Relapse coloca no mercado mais dois títulos importantes em vinil. Um deles é a obra suprema do death metal finlandês, o ep Privilege of Evil, do Amorphis, gravado em maio de 1991, mas somente lançado dois anos depois. O outro título é o segundo full dos finlandeses, Tales from the Thousand Lakes, originalmente lançado em 1994. Embora eu não goste do som do Amorphis no Tales (já haviam, desgraçadamente, abandonado o death metal clássico), reconheço que ambas as versões da Relapse ficaram do cacete:


Privilege of Evil - o clássico dos clássicos do death metal finlandês

Tales from the Thousand Lakes

O Privilege of Evil, como é de praxe nesses relançamentos, conta com várias opões de cores. Selecionei essa aí de cima, que me parece a mais legal e foi a que comprei. O Tales já está esgotado para venda no site da Relapse. Para quem gosta de death metal puro, perder essa edição do Tales nem é assim tão dramático. Agora, perder a do Privilege, aí é para chorar. Na minha humilde opinião, o ep Privilege of Evil, juntamente com o material do Abhorrence (para quem não sabe, essa era a banda dos caras antes de formarem o Amorphis), é o que de mais foda há no death metal clássico finlandês. Companheiros colecionadores, corram! Antes que seja tarde...

domingo, 8 de setembro de 2013

Nidhoggr "Ravens over the Road of Kings"

O black norueguês talvez seja o estilo mais inorgânico da história do metal. Concebido de forma deliberada, no início dos anos noventa, como uma reação estilística e ideológica ao multiculturalismo inclusivista do death metal, o estilo surgiu como um experimento realizado sob condições de laboratório a partir da fórmula patenteada pelo sueco Bathory na década anterior. Como é de sabença geral, o líder do Mayhem, Oystein Aarseth (vulgo Euronymous), foi seu principal artífice, ao estabelecer, cuidadosamente, os aspectos estruturais que iriam tornar, nos anos vindouros, o estilo inconfundível: blast beats quase sempre contínuos, high pitched riffs, palhetadas em trêmolo, vocais agudos rasgados, gravação tosca e estridente (nesse quesito específico, a contribuição de Dark Throne e de Burzum, reconheça-se, foi até mais importante do que a do Mayhem), visual blasfemo carregado de tachas e pregos, corpse paint, letras satânicas e assombradas por um passado mítico e remoto.
O sucesso da empreitada foi tão avassalador que rapidamente se operou no underground mundial um reducionismo: tocar black metal passou a ser entendido, quase unanimemente, como tocar black metal ao estilo norueguês. De fato, um dos mais importantes e duradouros legados dos noruegueses foi ter traçado, de modo claro e preciso, uma distinção entre death e black metal, que, até então, vinham mais ou menos misturados como prática musical (ainda que, conceitualmente, pudessem ser discernidos). Basta ver a importância que o metal da morte tinha no som de bandas de black metal extremo anteriores à explosão norueguesa, como Sarcófago, Blasphemy, Profanatica, Beherit ou Impaled Nazarene.
Talvez pela proximidade geográfica (e cultural), a cena finlandesa rapidamente mergulhou nas influências do norsk black metal. Sem embargo, como é da tradição dos finlandeses (o mesmo se passou, anteriormente, com o death metal vindo da Suécia), essas influências foram matizadas para gerar um black metal moderno mas com cara finlandesa. Um black metal embebido em certa obscuridade especial, uma rudeza tristonha difícil de definir, que é partilhada por muitas bandas vindas daquele canto gelado do mundo.
Foi nesse contexto que nasceu o Nidhoggr, projeto pessoal do compositor/guitarrista/baixista/vocalista/faz-quase-tudo Nadrach the Grim. Neste cd temos a única demo da banda, "Ravens over the Road of Kings", que consiste em apenas duas faixas e uma introdução gravadas em 1994. Trata-se de um black metal ríspido, ultradistorcido, emocionalmente carregado de negatividade, dramático, nostálgico e contemplativo, dotado daquelas típicas melodias tristes e desesperançadas do black nórdico. As maiores referências da banda parecem ser o Burzum e o Forgotten Woods antigos, mas o Nidhoggr investe mais fundo nos climas depressivos do que as duas bandas norueguesas mencionadas. Estruturalmente, sua música varia de uma levada toda cadenciada para um andamento misto, constituído por blast beats e passagens mais lentas, de modo a servir de base, no segundo caso, para a alternância de riffs frenéticos, cheios de trêmolos (com aquelas variações sutis que só ouvidos escolados conseguem captar), com riffs também intensos mas menos rápidos. Os competentes vocais vão na linha do que há de mais tradicional, revelando grande afinidade com Burzum. Ouçam a faixa "Thou Shalt Burn at our Stakes" e confiram.
Embora não seja muito original - até porque, nos idos de 1994, o só fato de tocar black metal norueguês já era, por si, algo novo -, o som do Nidhoggr é plenamente representativo do que de melhor se fez sob essa rubrica nos primórdios do estilo. Black metal transcendental, depressivo, anti-individualista, emocional, nostálgico, purista, trágico e contemplativo. Assim como todo bom black metal da escola norueguesa tem de ser. Assim como todo bom herdeiro da tradição romântica alemã - e o black norueguês o é - deve ser.
O suicídio de Nadrach (e não é esse mesmo o fim de todo herói romântico?) encerrou prematuramente a saga deste excelente Nidhoggr, mas fica aqui o registro de sua demo, felizmente resgatada do oblívio.
Tomando a liberdade de soar pernóstico: é música para dissolver o "eu psicológico" (liberal-burguês) no todo metafísico do "um não-dualista".


A capinha original da demo

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Antichrist Hooligans (Hammer of Damnation)





Uma coisa fundamental que descobri depois de muitos anos comprando discos foi que existem atalhos para o colecionador encontrar bandas legais. Mais especificamente, atalhos que podem encurtar o caminho na busca por um som de qualidade, de modo a evitar que o aficionado por música venha a perder tempo e dinheiro em demasia com porcarias rematadas ou bandas simplesmente descartáveis.
Um desses atalhos – um dos mais promissores – é conseguir identificar selos que sejam confiáveis. Selos que não lancem discos em escala industrial, visando a faturar pela quantidade e não pela qualidade de suas bandas. Selos que mantenham um padrão estético de qualidade. Não raro um padrão estético comprometido com algum estilo específico do metal. Em suma, é a velha história: selos que não sejam puramente comerciais. A verdade é que quando a gravadora é de respeito, seus lançamentos tendem a manter um nível mínimo de excelência. Enfim, você até poderá vir a não gostar, evidentemente, de determinado disco, de determinada banda, de um selo desses, mas dificilmente dirá que se trata de música de baixa qualidade.
A gravadora e distribuidora Hammer of Damnation, em minha opinião, inclui-se nesse seleto grupo de selos brasileiros respeitáveis.
Fundada em meados dos anos noventa pelo guitarrista e vocalista da banda de black metal paulista Evil, o Luiz Carlos de Oliveira (aka Warlord), a Hammer of Damnation sempre se destacou por dedicar-se ao patrocínio de grupos obscuros e radicais, inclusive em matéria lírica, pinçados, majoritariamente, do underground extremo nacional. Embora o black metal seja o foco principal do selo, a gravadora também cobre outras vertentes do metal, como o death metal old school e até o black thrash metal oitentista. Seu catálogo on-line oferece muitos títulos interessantes (vários deles a preços convidativos) e está repleto de bandas menos conhecidas, embora relevantes, do cenário black metal europeu, marcadamente as que colhem influências do folk e do viking metal.
Vale ressaltar que a Hammer of Damnation acabou de celebrar um acordo com a polêmica gravadora alemã Darker than Black, por meio do qual passará a atuar como sua filial oficial no Brasil.
A seguir vou destacar alguns bons lançamentos recentes do selo, assim como alguns mais antigos que, acho, merecem a atenção dos aficionados por metal extremo. Todas as bandas aqui mencionadas são brasileiras.

Antichrist Hooligans
"We Will Piss on your Grave"
Quem aí se lembra do velho Necrobutcher? Seu ex-vocalista, o Cristiano “Kranium” dos Passos, depois de anos sumido, volta a atacar (ao lado de outras figuras carimbadas do underground extremo de Santa Catarina), agora como batera desse ótimo Antichrist Hooligans. Diferentemente do Necrobutcher, o som do A. H. nada tem a ver com death ou noisecore. O que temos aqui, em seu disco de estreia, é um black thrash metal fiel ao som germânico dos anos oitenta – “nuklear metal punk nekro thrash metal”, segundo definição da banda –, que soa como um rebento bastardo de Destruction e Kreator dos primeiros lps com uma queda pelo punk. Ouça-se, por exemplo, os agudos do vocalista (que é puro Schmier) ou os riffs despejados pelas guitarras, uma mistura de “Endless Pain” com aqueles fraseados angulosos do “Infernal Overkill”. A bateria também segue a linha teutônica old school, revelando uma sonoridade mais seca e menos thrash que aproxima o som da banda do speed metal, assim como também acontecia nos primeiros plays dos grupos alemães que lhe servem de modelo. Entre as doze faixas que compõem o disco, destaco a ótima "Black Masses in Paradise", dotada de riffs empolgantes e uma parte cadenciada, ali pelo meio da música, capaz de arrancar a cabeça do ouvinte. Sem dúvida a melhor banda de retrothrash do Brasil.

Ritualmurder e Luvart (Hammer of Damnation)

Ritualmurder
"Ritual of Heavenly Murder"
Trilhando o caminho do mais tétrico black metal vem esse lúgubre Ritualmurder. Em seu disco de estreia, a banda apresenta um som realmente sombrio, dramático e verdadeiramente assustador, em que se destacam os vocais soturnos, em algo reminiscente do Attila Csihar no seu primeiro trabalho com o Mayhem, e a excelente rifferama cheia de trêmolos, na linha do black norueguês de raiz.
A banda de Euronymous, no “De Mysteriies Dom Sathanas”, é a principal referência, aos meus ouvidos, do Ritualmurder, inclusive na produção adotada no disco. Note-se, por exemplo, a timbragem aguda e cortante da seção de cordas. Citações a Sarcófago do “INRI” também surgem aqui e ali, notadamente em certos riffs de guitarra. De seu turno, a bateria acelerada, dominada por blast beats, não dá descanso ao ouvinte, com exceção da longa introdução semideclamada e da faixa “Funeral”, esta última totalmente arrastada ao estilo do antigo Samael.
A melhor música, a meu ver, é a que fecha o disco, intitulada “Ritualmurder”. Trata-se de um arregaço dirigido por trêmolos high pitched palhetados à velocidade da luz, na melhor tradição norueguesa. O clima tenebroso que envolve essa faixa em particular, feito à base de backing vocals fantasmagóricos, é verdadeiramente de arrepiar. Um disco especialmente recomendado a quem já perdeu as esperanças na redenção da humanidade. NOTA: Como não consegui um link com a música "Ritualmurder", vai aí um para a faixa "Nightmare", disponível para audição no próprio site da Hammer of Damnation.

Luvart
"Necromantical Invocation"
Ainda dentro do black metal, mas com uma abordagem bem diferente, é o Luvart. A banda não é nova. Formada em Juiz de Fora/MG na primeira metade da década de noventa, somente agora, depois de longo período de inatividade, pôde gravar seu primeiro full lenght. A espera, contudo, valeu a pena. Seu debut (comprometido até o osso - digo, a alma - com o ideário satânico-ocultista) é composto por dez faixas de músicas ritualísticas, mamutescamente pesadas e cadenciadas, nas quais as escovadas de guitarra são exploradas até o limite da exaustão.
A analogia mais óbvia da música do Luvart, ainda que não seja exata (os caras são, de fato, bem originais), é com o Samael do inigualável “Worship Him”, assim como, num grau menor, com o Celtic Frost da obra-prima “To Mega Therion”. Sem embargo, doses de death metal do início dos noventa – vide, por exemplo, os vocais guturais utilizados por Luggal Merodach – também se incorporam à identidade musical da banda, dando um gosto todo especial ao som. A esse propósito, ouça-se a marcante “Return of the Legion”, no curso da qual surge uma fodida passagem death/doom na linha do que fazia o ícone do death metal alemão Morgoth em seus áureos tempos.
A produção deixou o disco com uma sonoridade mais seca e moderna (felizmente, não excessivamente moderna), sendo possível ouvir-se com clareza os instrumentos, inclusive os bumbos, que soam agudos e bem na cara. Música feita por gente que conhece do riscado: original sem ser excessivamente avant garde e tradicional sem ser demasiadamente retrógrada. NOTA: Mesma história do Ritualmurder (como os discos foram recentemente lançados, ainda não há links na net para todas as músicas); forneço o que está disponível para "The Ancient Ritual".

Evil e Hammergoat (Hammer of Damnation)

Evil
"Pure Black Evil"
Uma das melhores e mais antigas bandas de black metal em atividade no Brasil, o paulista Evil conta com extensa lista de demos e de lançamentos em ep. Nesta compilação estão reunidos diversos sete polegadas e splits, alguns anteriormente disponíveis apenas em vinil, gravados pela banda entre os anos de 1996 e 2008. A produção, como não poderia deixar de ser, varia muito entre as músicas. Uma coisa, contudo, mantém-se constante: é invariavelmente tosca – como, aliás, exige o estilo.
O black metal da banda evoluiu pouco ao longo dos anos, mantendo-se sempre bem radical, numa linha tênue que oscila entre a fase black metal raiz do Behemoth, da Polônia, os primeiros plays do Burzum e as clássicas bandas francesas das Légions Noires, notadamente Mütiilation e Vlad Tepes. O destaque vai para os marcantes vocais desesperados de Warlord e os competentes, hipnóticos e ultradistorcidos riffs de guitarra, que conseguem o feito de soarem melódicos sem caírem na pieguice, mais ou menos no espírito dos velhos discos da banda de Varg Vikernes. A bateria, em regra, é bem discreta, limitando-se a marcar, ainda que com eficiência, o tempo da música, sem peraltices ou blast beats excessivos.
Aquele clima “nostálgico”, típico do bom black metal europeu noventista, domina a maioria das faixas e torna a audição emocional e fortemente contemplativa. Salvo um momento ou outro, não é música feita para headbanging. Ao ouvinte atento, pequenas mudanças na execução das bases, que se repetem exaustivamente ao longo de cada música, revelam aquele biscoito fino que muitas vezes separa as bandas superiores das medianas. Um par de músicas mais “rockers”, ao estilo Bathory do primeiro lp, destoa um pouco da aura obscura do resto do material. Nada, porém, que deponha seriamente contra a qualidade desta compilação, que ainda conta com um cover da lenda black metal alemã Moonblood.
Um bom exemplo da “mal gravada”, eficiente e emotiva música do Evil pode ser encontrado em "A Southern War from the Winters March", faixa tirada do split de 1996 com o Aryan Blood, da Alemanha. Relevante compilação de uma das bandas mais representativas do metal negro underground feito no Brasil. NOTA: O link fornecido acima possibilita a audição de alguns poucos segundos de todas as músicas constantes da compilação.

Hammergoat
"Regeneration through Depopulation..."
Projeto do pessoal do Evil, e bem diferente desse, o Hammergoat detona, em seu ep de estreia, um war black metal vil, niilista e fanaticamente antimelódico, ancorado em Blasphemy, Beherit e desgraceiras similares, mas sem soar como uma cópia barata. Momentos de full speed contrastam, graças à irrupção de transições súbitas, com passagens marciais tributárias da banda de Caller of the Storms, Black Winds e cia. Uma centelha infernal, inflamada pelo Archgoat, da Finlândia, também fagulha na música do Hammergoat, na forma de cadências sinuosas que conferem uma atmosfera de asfixia hipnótica ao seu som. Ouça a faixa "Misanthropy: the Future" e diga se não é para sair chutando todo mundo com o coturno durante o show. Para fechar o play, há um cover de “Black Vomit”, do Sarcófago, tocado com a fúria que a música exige. Banda fortemente recomendada a quem curte o lado mais visceral do black metal.