sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Asaradel (Hammer of Damnation)

Asaradel
Compilação de demos
Em sentido diametralmente oposto ao Dethroned Christ e ao Ravendark’s Monarchal Canticle, os mineiros do Asaradel invocam das negruras abismais do Hades o black metal mais puro, ortodoxo e hermético que se possa conceber. Esta compilação apresenta a demografia completa da fase metal dos caras, composta de três registros: “...of Satanas”, de 1991, “Avernus”, de 1992, e “Perpetuating the Law”, gravada no ano seguinte.
O som do Asaradel é de uma originalidade inquestionável. Dolorosamente cadenciado, a ponto de o doom mais arrastado parecer-lhe veloz, é carregado de acordes viajantes de guitarra que mais se assemelham a lamentos distorcidos reverberando infinitamente pelos intestinos tortuosos de uma caverna fria e úmida. Essa atmosfera singularmente obscura é em parte obtida com a utilização massiva de efeitos como o delay, tanto na guitarra, que abusa dos dedilhados macabros e dissonantes, como nos vocais, rasgados e encapetados. Música contemplativa feita para desencarnar do corpo. Ouça com cuidado a faixa título da demo de estreia e tente discordar. Já na demo de 92, consta um cover para a ótima “Doom of the Necroslaughter”, tema do clássico grupo holandês de black/doom Necroschizma (que só gravou demos em sua marcante e curta existência). Não por acaso, o Necroschizma é o parente musical mais próximo dos mineiros, embora cada um tenha sua própria e inconfundível identidade.
As duas primeiras demos do Asaradel são absolutamente sagradas, sendo que “...of Satanas”, na minha opinião, é um dos melhores e mais importantes registros de black metal do underground brasileiro. Uma pena que o conjunto haja mudado o direcionamento musical de forma radical, depois de ter gravado o terceiro tape, aderindo à moda de então, o bisonho e constrangedor gothic pop metal. Fico pensando como teria sido um full lenght genuinamente black metal da banda.

A Hammer of Damnation conta, ainda, com outros lançamentos relevantes, como o split cd do Evil com o australiano Drowning the Light (banda de que eu não gosto) e a compilação, até agora disponibilizada exclusivamente em tape, do material antigo do Dethroned Christ.
Permito-me encerrar, aqui, com uma sugestão ao Luiz Carlos de Oliveira, proprietário do selo: seria legal se fossem editados vinis limitados especiais dos seus principais lançamentos, assim como têm feito gravadoras estrangeiras (e, agora, até nacionais) que contam em seu cast com bandas potencialmente cult. Tenho absoluta certeza de que muitos colecionadores, no Brasil e lá fora, haveriam de se interessar pelo material.

domingo, 25 de agosto de 2013

Brain Dead "From the Ecstacy"


O sudeste asiático tem uma longa tradição no underground metálico. Pelo menos desde o final da década de oitenta, bandas provenientes daquelas paragens tornaram o lugar familiar para os colecionadores de demos ao redor do mundo. Os conjuntos de lá, usualmente a gravitar em torno do death/black metal visceral, primam pelo radicalismo do som e pela crueza das produções. Afinidades musicais com a cena extrema sulamericana são evidentes, principalmente com as clássicas bandas deathcore de Belo Horizonte.
O malaio Brain Dead encaixa-se perfeitamente nessa descrição. Seu debut e único full lenght, "From the Ecstacy" (sic), lançado em 1992 em formato cassete apenas no mercado doméstico da Malásia, consiste num deaththrash metal de cepa sulamericana fortemente influenciado pelo black metal old school (marcadamente na temática e nos vocais). Com efeito, em faixas como "Unholy Sins", a banda deixa clara sua dívida com Sepultura antigo, da fase "Schizophrenia" e até "Morbid Visions", na forma de riffs poderosos caudatários do já citado deaththrash feito na América do Sul na segunda metade dos gloriosos anos oitenta. Pitadas de Kreator, especificamente do "Terrible Certanty", também podem ser identificadas no som dos malaios. Menção especial vai aqui para a fuderosa cadência thrash que irrompe no meio daquela música: um quebra-pescoço superpalhetado típico do estilo.
Já em "Twisted Souls", o black metal da velha escola dá as caras e citações aos brazucas Sarcófago, do "INRI", e Sex Trash, do maravilhoso "Sexual Carnage", se fazem abundantes. O black metal grego, bem do comecinho dos noventa, também ajuda a compor o som do Brain Dead. Ouça-se, por exemplo, a excelente "Sacred", faixa majoritariamente construída numa levada mais lenta em que pulsa forte o espírito obscuro do antigo Rotting Christ do clássico ep "Passage to Arcturo". Aliás, cumpre ressaltar a extrema competência da banda para criar melodias macabras, bem na linha dos já citados Sepultura e Rotting Christ das antigas, que muito enriquecem o som dos caras, sem nunca soarem, entretanto, tolas ou melosas.
Embora eu tenha escolhido destacar essas três faixas - por coincidência, as três primeiras do play -, todo o disco é realmente muito, muito bom. A produção, ainda que pudesse ter conferido mais peso e densidade ao som, não compromete: é crua e casa bem com o estilo trilhado pela banda.
De bônus, esse relançamento limitado e numerado da obscura Thrashingfist da Malásia (a americana NWN! foi responsável pelo relançamento em vinil do lp) traz duas demos gravadas no ano de 1991. Numa delas, pessimamente produzida, o som do Brain Dead está bem diferente, contando com músicas curtas e rapidíssimas, que aproximam a banda do noisecore. A outra demo, composta por duas faixas registradas ao vivo num festival na Tailândia (ambas regravada no full lenght - uma delas com outro nome), é muito melhor e mostra a banda já seguindo a fórmula de sucesso do seu debut.
Dentro da onda de relançamentos que atualmente vem assolando o mercado, os títulos vindos do sudeste asiático - embora não sejam, talvez, os mais procurados pela generalidade dos colecionadores - são dos mais interessantes. Além desse ótimo Brain Dead, outras bandas históricas do metal extremo asiático, como os excelentes Abhorer e Nuctemeron  (não confundir com o homônimo brasileiro), ambas formações de Cingapura, ganharam versões recentes de seus velhos discos em cd e até em vinil. Para os fãs de black/death metal old school, esse é o momento exato de espichar os olhos em direção ao Oriente. Afinal, se conseguir hoje as versões originais daqueles discos é tarefa quase impossível, esses relançamentos, principalmente quando são limitados, logo ficarão também indisponíveis. Então, colecionador, se apresse! Salvo se você não se importe em pagar, no futuro, preços exorbitantes no e-bay e sites congêneres.


O belíssimo relançamento em vinil duplo da NWN!


Uma das primeira fotos promocionais do Brain Dead

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Loudness "The Birthday Eve"

O Loudness é considerado a primeira banda de heavy metal do Japão. Por décadas os discos do início de sua carreira foram de difícil aquisição, visto que inicialmente lançados, em lp, apenas em terras japonesas. Felizmente isso agora mudou. O selo inglês Krescendo Records finalmente disponibiliza no mercado internacional os três primeiros álbuns da banda, em formato cd. Trata-se, provavelmente, da melhor fase dos japoneses.
A música do Loudness – extremamente bem composta, caracterizada por guitarras espertas e transições de grande fluidez e qualidade – situa-se naquela linha tênue que separa o hard rock do heavy metal. Abundam no som da banda influências tomadas tanto de colossos setentistas do rock pesado, como Deep Purple e Whitesnake, como de conjuntos mais rápidos pertencentes à então fervilhante cena oitentista da New Wave of British Heavy Metal, como Iron Maiden e Def Leppard. Até um pouco de Van Halen e mesmo de pop (?!), há de se reconhecer, com inegável constrangimento, têm seu lugar na música do conjunto.
Embora inicialmente lançado, repita-se, apenas no mercado japonês, no longínquo ano de 1981, o disco de estreia do Loudness, “The Birthday Eve”, mesmo constituindo um caro item importado, rapidamente ganhou a atenção de fãs de todos os cantos do mundo. Fãs que, embora sequiosos pela velocidade crescente das novas bandas de heavy metal do início da década de oitenta, não dispensavam a inclusão de grandes doses de melodia na música. Ora, melodia e velocidade era precisamente o que o Loudness entregrava a seus ouvintes. Ouça-se, por exemplo, a faixa "Sexy Woman", movida a elaboradas melodias vocais, riffs quase sempre rápidos e sólidas partes de bateria e baixo, com óbvias referências a Iron Maiden (nas partes aceleradas). Não seria exagero dizer que já se prenunciava aí o power metal melódico que seria deflagrado anos depois, em meados da década de oitenta, por bandas festejadas como o alemão Helloween e o brasileiro Viper. Outro destaque do disco é a intrincada faixa "Street Woman", em que a técnica apuradíssima dos músicos se sobressai na forma de riffs angulosos e seguidas mudanças inusitadas de andamento. Até mesmo uma pitada de rock progressivo, na linha do canadense Rush, pode ser percebida na brilhante transição efetuada no meio dessa música. Felizmente para nós, amantes do bom e clássico heavy metal, as influências progressivas mantêm-se sempre discretas, nunca descambando para a aporrinhação tecnicista. Já a face puramente metal da banda aparece clara em faixas como "High Try" – um petardo N.W.O.B.H.M. na linha Diamond Head/Blitzkrieg em que é impossível não se engajar no headbanging.
A produção do disco é muito boa e deixou todos os instrumentos pesados e cristalinos, sem, contudo, pasteurizá-los. Ainda que o trabalho da cozinha seja memorável, cabe exaltar, em especial, a excelência das guitarras (tanto nos solos debulhados quantos nos riffs faiscantes), a cargo do virtuose Akira Takasaki, e o grande desempenho do vocalista Minoru Niihara. Aqui, entretanto, cabe um alerta. Muito embora a imposição vocal de Niihara possa parecer, a alguns ouvidos ocidentais, exagerada, mesmo dentro dos limites generosos do hard rock e do heavy metal, há de se ter em conta que não se trata de característica exclusivamente sua, mas da cultura musical do Japão. De fato, a música típica da Terra do Sol Nascente, seja rock, metal ou mesmo popular, é marcada por vocalizações calcadas em agudos “trincantes”. Dentro desse contexto, portanto, não chega a espantar o registro adotado por Niihara, ainda mais quando ele opta por cantar em japonês (durante quase todo o disco) e não no óbvio inglês.
O Loudness apenas iniciava, com “The Birthday Eve”, uma longa carreira, de moderado sucesso internacional, que se estende até os dias atuais. Outros bons discos se seguiram ao debut, como “Devil Soldier” (de 1982) e, num patamar inferior, “The Law of Devil’s Land” (de 1983), encerrando a fase de lançamentos exclusivamente japoneses da banda. Mas nem tudo são flores. Ao entrar, posteriormente, no mercado dos EUA e europeu, a banda optou por seguir uma trilha mais próxima do metal comercial americano, adicionando doses substanciais de melodias fáceis à sua música. O resultado dessa mudança, a partir da segunda metade dos anos oitenta, foi uma visível queda de qualidade musical, ao menos do ponto de vista do metal mais puro.
Sem embargo, seus primeiros discos, em especial o debut, são ótimos exemplos de metal melódico da mais alta qualidade. Para quem não conhecia a banda (e mesmo para os que a conheciam, mas ainda não tinham seus primeiros discos), os relançamentos da Krescendo Records são a oportunidade perfeita para resgatar um pedaço importante da história do heavy metal clássico japonês – e, por que não dizer, mundial – dos anos oitenta.


O visual assustador do pessoal do Loudness na época do debut
(se alguém disser que é incapaz de curtir a música por conta disso, entenderei perfeitamente)

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Invader "Children of War"


Death, black, war black metal, splatter. Metal extremo. Ok. Contudo, dando rápida passada de olhos nos posts anteriores, notei que a descrição deste blogue parece não entregar tudo o que promete. Afinal, cadê o metal clássico das antigas? Pois bem. Vou agora resgatar parcialmente minha dívida. Falarei sobre uma banda hoje quase totalmente esquecida (mas muito legal!) pertencente a um dos estilos mais fantásticos da gloriosa história do metal: o heavy/speed metal oitentista.

O nome Invader decerto não é mencionado entre os grupos mais importantes da velha e superpovoada cena alemã. Quando seu disco de estreia, "Children of War", foi gravado, em fins de 1985, o heavy metal clássico já estava em franco declínio, ao menos junto à massa mais nova e furiosa de headbangers. De fato, o frescor, a crueza e a velocidade insana das insurgentes bandas de thrash e black metal - epitomados, na antiga Alemanha Ocidental, pelo maldito trio de ferro Destruction/Sodom/Kreator - haviam deixado o heavy mais ortodoxo com um semblante envelhecido.
A resposta da corrente mais conservadora a esse boom do thrash metal foi, em parte, acelerar, ela também, o tempo da sua música, inserindo bumbos duplos e palhetadas mais "fritadas", com a manutenção, porém, de altas doses de melodia, tanto nos fraseados de guitarra quanto nas linhas vocais, seguindo e defendendo a tradição do heavy metal clássico. Essa reação (depois transformada numa paródia ridícula nas décadas seguintes), por alguns denominada, naquela época, de power metal, gerou frutos excelentes. Como ilustração mencionem-se o antigo Helloween (fase com Kai Hansen), na Alemanha, Agent Steel e Omen, nos EUA, e Viper (do primeiro disco), no Brasil.
Sem embargo, esmagadas entre uma tendência (do thrash) e outra (do power), muita bandas ficaram pelo caminho. Não eram duras o suficiente para entrarem na cena thrash nem tão melódicas para serem aceitas na do power. Esse foi o caso do nosso Invader. Sua música, para bem e para mal, é um retrato fiel do heavy/speed metal alemão da época: riffs calcados em Accept (do "Restless and Wild" e do "Balls to the Wall") e Judas Priest (do "British Steel" e do "Screaming for Vengeance"); andamentos sem obsessão por seguidas mudanças de tempo no curso da mesma música, com a inclusão, nas partes mais rápidas, de bumbos duplos; melodias vocais simples mas bacanas, com um toque épico em alguns momentos; palhetadas cavalgadas; boas harmonias de guitarras e uma sonoridade mais contida (e não tão thrash) na caixa da bateria. Tudo isso pode ser conferido, por exemplo, na ótima faixa "March for Victory".
Não faltam também, em "Children of War", aquelas músicas mais rockers, feitas para bater cabeça no show, cantando junto com a banda com um dos braços levantado no ar, caso de "Black Sex". Muito divertida! O play fecha com a indefectível balada movida a dedilhado. Embora não seja muito fã delas, reconheço que a despretensiosa "Days of Sorrow" não é ruim.
"Children of War" foi, ao mesmo tempo, o disco de estreia e o canto do cisne do Invader. Logo depois a banda acabou. Muito provavelmente em razão da já referida falta de espaço no cenário metal da época.
Para nós, colecionadores devotados, descobrir essas pérolas do passado é gratificante. Principalmente hoje, quando tantas bandas retrô tentam ressuscitar, com mais fracassos do que sucessos, o saudoso espírito libertário dos anos oitenta. Um agradecimento especial fica aqui registrado para a finada No Remorse Records, da Grécia, pela pesquisa minudente que possibilitou o relançamento desse disco. Junto com alemães e japoneses, os gregos são, definitivamente, os maiores arqueólogos da era de ouro do metal.

O pessoal do Invader - no velho e bom espírito oitentista "heavy metal é diversão"

terça-feira, 30 de julho de 2013

Neuro-Visceral Exhumation "Mass Murder Festival"

Faz já um tempo que decidi escutar novamente toda a minha coleção de cds. Sabia que ouvir tudo ia demorar. Afinal, tenho quatro mil discos digitais. Mas não achei que depois de quinze anos só teria ouvido dois terços do total. Algumas vezes deparei com goiabas horríveis. Coisas pavorosas que, simplesmente, não consegui entender a razão de haver um dia comprado. O destino dessas tralhas invariavelmente é o sebo. Claro, sempre levo prejuízo nessas negociações. Mas, pelo menos, arrumo espaço para adicionar novos títulos às minhas já lotadas prateleiras. De outro lado, muitas vezes redescubro discos excelentes. Discos que, por alguma razão, acabaram injustamente esquecidos no meio de muitos outros. Esses dias tive a felicidade de redescobrir uma dessas pérolas: "Mass Murder Festival", o full lenght de estreia da finada banda paulista de splatter Neuro-Visceral Exhumation, lançado em 2003 pelo selo australiano No Escape.
O que temos neste paly é o mais puro splatter que se pode almejar. Nada de influência de death metal nem de power violence. Nada de Suffocation ou Cannibal Corpse tocado ao dobro da velocidade - o que muitos passaram confusamente a entender como "splatter" a partir do fim dos anos 90. Quando falo de splatter quero dizer splatter mesmo: letras discorrendo principalmente sobre mortes cruentas, patologias e anomalias médicas (e não obsessivamente sobre fetichismo sexual, machismo chauvinista ou misoginia), riffs mórbidos derivados do grindcore old school, vocais absurdos nos extremos da distorção, baixo em curto-circuito tributário da escola napalmiana, passagens crust/hardcore no contra-tempo, picos histéricos de grind (que não se confundem com os blast beats do death ou do black metal noventistas) e insidiosas cadências quebra-pescoço vindas do metal mais imundo. É nessa cartilha que reza o Neuro-Visceral Exhumation.
A principal referência da banda é o maravilhoso Dead Infection, da Polônia, da fase clássica do "A Chapter of Accidents", conjunto do qual, significativamente, os paulistas fazem aqui um cover. Assim como nesse brutal play do Dead Infection, as músicas do Neuro-Visceral Exhumation, em "Mass Murder Festival", são totalmente guiadas pela velocidade, com evidente destaque para as levadas quebradas e epiléticas do batera, que, a propósito, é o compositor principal da banda. Alguns momentos mais cadenciados aparecem aqui e ali, mas com muita parcimônia (para o meu gosto, com parcimônia até demais). De fato, quando esses momentos mais cadenciados surgem, o convite ao headbanging torna-se irresistível, como se pode conferir na intoxicante "Fatal Anal Sex Disembowelment". Ouçam e me respondam se essa cadência demolidora não parece muito com as coisas que o Mortician - a banda mais grind do death clássico americano - gosta de fazer.
A produção eficiente (para o estilo) conferiu à bateria aquela sonoridade "pipoca na panela" tão característica das bandas de splatter pós-Carcass. Vocais mastigados e decompostos na mais pútrida distorção, escudados por ótimos riffs executados por uma sessão de cordas extremamente pesada, completam o time vitorioso do Neuro-Visceral Exhumation neste play. A banda ainda gravou um segundo full lenght - "The Human Society Wants More Gore" - no ano seguinte (2004), mostrando alguma influência de death metal e uma produção menos impactante. Embora também seja um bom disco, não se compara ao seu debut. Aliás, seria salutar se algum selo se dispusesse a relançar os splits gravados pela banda anteriormente aos seus full lenghts. Esse material raro e hoje totalmente fora de catálogo merece ser resgatado.
Na minha opinião, "Mass Murder Festival" é o melhor disco de verdadeiro splatter já gravado no Brasil. Um pequeno clássico do estilo, que pode ser colocado em pé de igualdade (ou próximo disso) com obras de bandas internacionais reconhecidas pertencentes à segunda e terceira ondas do splatter, como as do francês Pulmonary Fibrosis, do holandês Last Days of Humanity ou do alemão Mucupurulent. Mais uma prova inequívoca da força do underground brasileiro em todos os estilos mais radicais do punk e do metal.


Fidelidade ao splatter até no logo


O pessoal do N.V.E. na gravação do "Mass Murder Festival"


PS. Leiam também a resenha desse mesmo cd feita pelo K.O.D.A. no blogue Som Extremo

domingo, 28 de julho de 2013

Demonomancy (ITA) "Rites of Barbaric Demons"

Da Itália surge um brado furioso de ódio e vingança. Bem nas vetustas barbas do Vaticano acha-se uma das mais blasfemas e promissoras novas bandas do war black metal mundial.
Os romanos do Demonomancy (nada que ver com a banda homônima da Espanha) mostram neste longo ep de vinte e dois minutos, lançado pela Nuclear War Now!, um death/black realmente empolgante, com muitas mudanças de andamento, incluindo a presença de longas partes lentas (não tão comuns no estilo), e uma grande variedade de riffs. Os vocais seguem a linha típica do gênero e cumprem a contento seu papel. A boa produção conferiu uma sonoridade mais "aberta" - e não muito densa - à gravação: uma timbragem legal que lembra a do excelente Archgoat, da Finlândia. E não é somente na timbragem que a banda finlandesa é lembrada aqui. Também abundam no som do Demonomancy aquelas hipnóticas cadências sinuosas que são uma das marcas da banda de Angelslayer e cia. Outra influência inegável é Sarcófago antigo. Em muito momentos, principalmente nas levadas mais marciais, dá pra jurar que o velho DD Crazy assumiu as baquetas. Toques de Blasphemy, principalmente nas viradas de bateria, Black Witchery, em algumas ótimas guitarras e nos vocais, e de Demoncy (ouçam-se os riffs das partes rápidas de "Involution of Spirit into Mass"), também podem ser notados, assim como traços de death metal old school, na forma de cadências construídas por meio de pesadíssimos riffs de guitarras, na esteira do que faz o Incantation nos seus momentos mais doom - ou alguém é capaz de negar a filiação à escola John McEntee de composição naquele riff mórbido e arrastado que aparece da metade para o fim da faixa título do ep?
Sem embargo, isso não significa que o Demonomancy careça de personalidade. Mesmo uma abordagem original há de deitar raízes na tradição. É precisamente o que fazem os italianos, ao plasmar seu som a partir das referências clássicas do war black metal e do death/black em geral. Uma boa ilustração disso pode ser colhida na fulminante "Bearers of Black Arts", faixa originalmente registrada (em outra sessão) na demo de mesmo nome lançada em 2010.
Para o júbilo dos adoradores das artes negras, o full lenght de estreia do Demonomancy - "Throne of Demonic Proselytism" - acaba de ser lançado, por enquanto apenas no formato em vinil, pelo selo californiano Nuclear War Now!. Obviamente, já tratei de encomendar o meu, na caprichada versão die hard.
De todas as novas bandas de war black metal, e muitas têm surgido nos últimos tempos, o romano Demonomancy é um dos mais sérios candidatos ao posto de principal revelação. A habilidade ímpar com que a banda faz uma releitura da tradição é justamente seu diferencial e garante que não seja tomada apenas como outra cópia dos clássicos do estilo. Embora eu, pessoalmente, seja até tolerante com bandas que emulam outras (desde que a emulação seja competente), reconheço que originalidade agrega muito ao som. Ainda que não reinvente o gênero, o Demonomancy mostra que tem, sim, identidade. Este excelente ep é a prova definitiva. Que venha, agora, o full lenght!


O maléfico trio do Demonomancy 

A versão die hard do lp de estreia - "Throne of Demonic Proselytism"

sábado, 20 de julho de 2013

Cenotaph "The Gloomy Reflection of our Hidden Sorrows"

A cena death metal mexicana do finalzinho dos oitenta, início dos noventa, era cheia de bandas interessantes: Noctambulism, Shub Niggurath, Demogorgon, Coprofagia, Supplicium, Toxodeth, Mortuary, Transmetal, Bloodsoaked. A melhor e a mais famosa delas talvez tenha sido (junto com o Shub Niggurath) o Cenotaph.
Por muito tempo procurei, inutilmente, uma cópia do clássico debut da banda, "The Gloomy Reflection of our Hidden Sorrows". Inicialmente lançado em pequena tiragem, nos idos de 1992, pelo desconhecido selo Horus Productions, do México, o cd logo se tornou item fora de catálogo. Em 1998 houve um relançamento, com a arte da capa modificada (para pior), pelo selo Oz, do qual nunca achei uma única cópia. Foi apenas no começo deste ano de 2013, graças à iniciativa da também mexicana Chaos Records, que o disco, finalmente, voltou a ser disponibilizado de forma ampla ao público. Primeiro numa caprichada versão em vinil duplo colorido. Depois, em cd. De bônus foram incluídos os dois eps gravados pelo Cenotaph antes do primeiro lp: "Tenebrous Apparitions" (que já havia sido anteriormente veiculado em mídia digital numa compilação lançada um par de anos atrás pelo selo Distorted Harmony) e "The Eternal Disgrace", ambos de 1990.
Falando do som, o Cenotaph, em "The Gloomy Reflection", bebe diretamente na fonte do death sueco mais visceral – aquele da clássica sonoridade do Sunlight Studios. Vale dizer, um metal da morte superpesado, casca grossa e verdadeiramente sombrio. As faixas do play são bem variadas em matéria de andamento, com muitas mudanças de tempo – indo do grind ao doom – e também de riffs. Aliás, na catadupa de riffs que compõe o play, alguns são realmente memoráveis; já outros, nem tanto. De se registrar que essa mudança incessante numa mesma faixa soa, por vezes, um pouco confusa e acaba por comprometer a unidade da música. Mais ou menos na linha do que acontece com o primeiro lp do Dark Throne, na época em que os noruegueses tocavam death metal, e que também é uma forte influência para o Cenotaph. A semelhança com o som sueco revela-se ainda na onipresença de belas harmonias de guitarras construídas sobre bases arrastadas e pesadíssimas. Numa ou noutra faixa surge também algo do som antigo (quando eles ainda tocavam metal de respeito) da trindade inglesa do doom/death gótico: Anathema, My Dying Bride e, principalmente, Paradise Lost. Teclados discretos também surgem aqui e ali, apenas para intensificar as bases das guitarras. Todas essas características podem ser encontradas, por exemplo, na longa faixa "Ashes in the Rain".
A produção do disco é boa, embora pudesse ter conferido um pouco mais de densidade aos instrumentos, e claramente imita o estilo das bandas gravadas pelo mago Tomas Skogsberg no mesmo período. O vocal é outro ponto alto, cortesia do gutural soturno vomitado por Daniel Corchado, que depois viria a integrar (sem a mesma eficiência demonstrada aqui) uma das instituições do death metal americano, o Incantation.
Já nos eps, o Cenotaph se revela bem mais cru, com a adição de uma óbvia e corrosiva dose de Carcass antigo ao seu som. A produção, principalmente no primeiro dos eps ("The Eternal Disgrace"), deixa a desejar, embora não chegue ao ponto de impedir entender-se a música. A ótima e pútrida "Repulsive Odor of Decomposition", tema do ep "Tenebrous Apparitions" e que foi regravada em "The Gloomy Reflection", é apresentada aqui em sua versão original e, deve-se reconhecer, ficou mais pesada do que a versão do debut.
É uma pena que o Cenotaph, após seu lp de estreia e já sem o Corchado, tenha se distanciado do death metal mais sombrio para trilhar caminhos menos pesados e mais melódicos. Seria de se imaginar até onde a banda poderia ter chegado se tivesse maturado seu som sem perder sua essência radical. Sem embargo, "The Gloomy Reflection of our Hidden Sorrows", mesmo com seus pequenos defeitos, é um marco do death metal mexicano e seu providencial relançamento serve para nos lembrar de como o metal da morte do início dos noventa (antes de o lixo melódico se infiltrar no death metal) era absolutamente maravilhoso.


A versão em vinil do relançamento da Chaos Records
(também disponível em vinil laranja e no clássico vinil preto)

Cenotaph, com Daniel Corchado - por volta de 1992